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Sexta-feira, Outubro 22, 2021
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A jóia de Santa Iria da Azóia

Palácio e da Quinta de Valflores com reabilitação prevista, é um marco cultural em Loures

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Há lugares que são especiais. Que sobrevivem
ao tempo. Aos tempos. Conhecedores de uma
história maior, traçam o perfil de uma região,
de uma comunidade. As paredes – com alma –
do Palácio e da Quinta de Valflores, em Santa
Iria de Azóia, resistiram a tudo ao longo dos anos.
Foram salvas ao cair do pano. E o futuro está já
aí, ao virar da página. Será, certamente,
um lugar de cultura e conhecimento.

Recuperar a história de um edifício com quase 500 anos de existência não é
tarefa fácil. Mas já que o imóvel teimou em resistir, igual a si próprio, ao longo de
todos estes anos, o Município de Loures não poderia virar costas ao desafio de o
recuperar, valorizar e de lhe devolver todo o seu esplendor. A Quinta e o Palácio
de Valflores são estruturas singulares, até na forma como chegaram aos dias
de hoje, mantendo a sua planta original, que em muito se assemelha às típicas
plantas do renascentismo italiano.
Implantado na encosta, com uma enorme varanda aberta para o rio e para a
vila de Santa Iria, exibia toda uma fachada cénica, de esplendor e afirmação do
poder. Mandado construir por Jorge Barros, importante feitor do rei D. João III,
na Flandres que, pelo seu cargo, contactou com diversas gentes e realidades,
trazendo para Portugal conhecimento, influências e dinheiro.
No palácio conseguiu replicar os modelos que estavam em voga em Itália, e dotou a quinta das melhores condições técnicas do ponto de vista da hidráulica,
utilizando a ribeira que atravessa o espaço, a mina e os dois aquedutos mandados construir por Jorge de Barros. O aqueduto de cima recebia água do poço,
através de uma nora que, provavelmente, abastecia a casa; e o de baixo, perpendicular ao primeiro, que serviria para abastecer a parte produtiva da quinta.


O Palácio das Abóboras
No final do século XIX, a família inglesa Reinolds adquire a quinta para exploração
agrícola, colocando como caseiros a família do senhor Fortunato, que lá chegou
pequeno, mas ganhou grande protagonismo entre os habitantes daquela vila, por
colocar as abóboras a secar na loggia do palácio (a grande varanda da fachada
principal), e que, por isso, passou a ser conhecido como o Palácio das Abóboras.
Com uma produção agrícola e pecuária intensiva, o edifício começa a revelar fragilidades e, na década de 1970, um organismo público reúne um grupo de técnicos para estudar Valflores. Entre eles estão técnicos municipais, e logo desde essa altura, mesmo não sendo proprietária do imóvel, a Câmara Municipal toma a dianteira na preservação deste edificado.
Em 1982, o Palácio é classificado como Imóvel de Interesse Público e é feita uma
Carta de Risco, que englobou o registo fotográfico e o diagnóstico do edifício.
Já na década de 1990 e com a perspetiva de construção do IC2, que liga Santa
Iria de Azóia a Sacavém, a Câmara chega a um acordo com a empresa Valorsul
para a reabilitação do Palácio de Valflores, mas o Governo de então não autoriza
a sua concretização. A degradação continua a acentuar-se.


Renascer para uma nova vida
O Município de Loures adquire o imóvel em 2006 e, cerca de dez anos depois,
com o edifício já em risco de colapso, realizou uma intervenção de emergência
para protegê-lo dos efeitos climatéricos. Garantida que estava a proteção do edifício, era agora necessário avançar-se para a consolidação da estrutura e assim
ganhar tempo para pensar na utilização que se pretendia dar àquele exemplar
quinhentista.
Com a aprovação da candidatura ao PORLisboa 2020, que financia em 50% do
valor da intervenção, a Câmara aprova a execução do projeto, que se desenvolve
em três fases: consolidação e estabilização estrutural do palácio e do aqueduto

de cima; execução das coberturas e fecho de vãos de portas e janelas; e, por fim,
trabalhos de restauro e proteção de elementos arquitetónicos.
A urgência era consolidar e estabilizar a estrutura do edificado. Para tal, foi injetada uma calda hidráulica nas paredes, realizadas pregagens em cantaria através
da execução de carotes, onde foram introduzidos varões de aço inox e injetado o
ligante, estabilizando as paredes. Foi reconstruído um teto em abóboda, no piso intermédio, e refeita a cobertura da loggia. Os chãos foram limpos de betão, gravilha
e madeiras apodrecidas.
O aqueduto de cima também foi consolidado com a mesma calda, para agregar o
miolo da parede, e foi refeito o arco, a par com um acompanhamento arqueológico
que permitiu perceber já a dimensão de algumas estruturas.


Surpresas arqueológicas
No meio de todo este processo, aconteceram algumas surpresas. A mais importante ocorreu quando, numa sala mais interior do piso térreo, se começou a retirar
todo o chão de cimento, os muretes construídos para albergar os porcos e as vacas, e se limpou toda a gravilha: começam a aparecer vestígios de talhas de azeite.
Partidas e enterradas, mas que confirmam uma das descrições feitas num dos
poucos documentos que existem sobre este palácio – o Auto de Vistoria – datado
do final do século XVIII, no qual se refere a existência de uma sala com sete talhas

de azeite. Terminada a primeira fase e com o edifício já consolidado, é altura de
avançar para a segunda e terceira fases. Além dos revestimentos das paredes,
vão ser recolocadas as coberturas do primeiro andar e da loggia, que será refeita
à semelhança daquilo que era originalmente. E serão fechados os vãos de portas
e janelas, para que se possa passar à fase de conservação e ao restauro.
Mais um desafio: numa casa com centenas de anos e um acumular de ocupações
que lhe foram introduzindo alterações, a dificuldade de fazer uma leitura histórica
do edifício é enorme.
É preciso tomar decisões e perceber que ‘camadas’ se quer preservar. Não se
pode simplesmente recuar à origem e ignorar tudo o que foi sendo alterado e recuperado ao longo dos anos, porque tudo isto faz parte das vivências do palácio.
A título de exemplo, é possível perceber que a ala nascente tem alterações que
pertencem ao século XIX, mas que, por outro lado, a ala poente remonta ainda
ao século XV. Tudo o que lá se passou é importante para a sua história e, por isso,
deve ser preservado, desde o mais antigo ao mais recente. A filosofia do projeto é
manter viva a história do palácio.

Futuro em análise
Abrir as portas da Quinta e do Palácio de Valflores e devolvê-los à população
é o objetivo último deste projeto. Mas para isso importa começar a elencar as
possibilidades de utilização, dentro de áreas como a investigação ou a formação, tendo em conta as condicionantes a nível urbanístico, patrimonial e da sua
classificação.
A decisão, a tomar em breve, será articulada com outros projetos que a Câmara
Municipal está a desenvolver naquela zona, nomeadamente o projeto da Frente
Ribeirinha, os vários percursos cicláveis previstos para o futuro Parque da Várzea e Costeiras de Loures e ainda com o Parque Urbano de Santa Iria de Azóia.
Um projeto para um conjunto patrimonial quinhentista de inegável valor, que
deve ser conhecido e usufruído por todos, muito para além das fronteiras do
concelho de Loures. Um lugar de cultura.

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